Sempre me vali
das palavras de Mandela, “Eu odeio o racismo, pois o considero uma coisa
selvagem, venha ele de um negro ou de um branco”. As separações não são
naturais, foram criadas, inventadas, legitimadas sob a face de
tradição, como se fossem inveteradas e imutáveis. Condenamos nossos
negros a 300 anos de escravidão e há mais de 500 de inferioridade, em
educação, em oferta de emprego, em moradia, em saneamento básico, em
respeito.
Cotas não são
reparo social, cotas são políticas afirmativas. Com quantos negros você
trabalha? Com quantos negros você estudou? A argumentação contra é
sempre baseada em se oferecer uma melhor educação desde a infância, o
que é incontestável. Mas a questão que fica é o que eu faço com essa
geração? Os condeno ao subemprego? Ou espero que superem todas as
dificuldades que lhes foram impostas? O professor e juiz federal Wiilian
Douglas melhor definiu a situação. "Conheço vários heróis, negros, do
Supremo à portaria de meu prédio. Apenas não acho que temos que exigir
heroísmo de cada menino pobre e negro desse país”.
Somos uma nação
miscigenada, motivo de orgulho quando pisamos fora das fronteiras. O
discurso clássico quando se questiona a classificação racial no país é:
"Mas quem é negro ou branco no Brasil? Eu posso escolher ser o que
quiser". Sim, é possível, a questão racial em termos antropológicos pode
ser vista por processos identitários que envolvem critérios de
aproximação, afetividade e assimilações - ou seja, em tese qualquer um
pode se declarar negro. Mas e nossas periferias? Também podem escolher?
E podemos sair
da subjetividade, seguir com estatísticas. Os dados revelados no último
Mapa da Violência, de 2012, deixam claro que “a tendência geral desde
2002 é: queda do número absoluto de homicídios na população branca e de
aumento nos números da população negra”. Segundo a divulgação, morreram
65% a mais de negros do que brancos no Brasil. O índice piora quando a
idade é entre 12 e 21 anos, para cada 100 mil habitantes morreram 37,3
brancos, enquanto a taxa de negros é de 89,6 mortos para os mesmos 100
mil. Façam suas contas, para cada branco assassinado, morreram 2,3
negros, será que vivemos mesmo em igualdade racial?
Nem todo mundo
escolhe se é preto ou branco, são dois pesos e duas medidas. Eu
(felizmente) pude, tive muitas oportunidades, estudei em boas escolas,
assim como parte da elite que insiste em repetir a argumentação da
miscigenação. Tenho muito orgulho de fazer bom uso da frase do meu
querido e negro avô, “passou de branco, preto é”. Carrego minha cor, meu
cabelo e minha história. Mas todo pobre e preto nesse país sabe muito
bem quem é quem e não escolheu.
Se
alguém discorda das cotas, me perdoe, mas não devem fazê-lo olhando os
livros e teses, ou seus temores. Livros, teses, doutrinas e leis servem a
qualquer coisa, até ao nazismo. Temores apenas toldam a visão serena.
Para quem é contra, com respeito, recomendo um dia “na cadeia”. Um dia
de palestra para quatro mil pobres, brancos e negros, onde se vê a
esperança tomar forma e precisar de ajuda. Convido todos que são contra
as cotas a passar conosco, brancos e negros, uma tarde num cursinho
pré-vestibular para quem não tem pão, passagem, escola, psicólogo,
cursinho de inglês, ballet, nem coisa parecida, inclusive professores de
todas as matérias no ensino médio. (Willian Douglas em http://www.pragmatismopolitico.com.br)
O mesmo convite
fez a professora Jane Elliott, de Riceville, Iowa, a seus alunos em 1969
quando decidiu mostrar-lhes de forma empírica o que era discriminação e
quais eram os prejuízos que causava às pessoas. Elliott criou o
exercício “Olhos azuis/Olhos castanhos”
, 30 alunos foram divididos pela cor dos olhos, no primeiro dia, a
professora disse aos meninos de olhos azuis que eles eram mais espertos,
mais bonitos, mais limpos e melhores do que os de olhos castanhos.
Durante todo o dia a professora elogiou-os e concedeu-lhes privilégios,
enquanto que os meninos de olhos castanhos, além de terem de usar um
colarinho, tiveram os seus comportamentos e resultados criticados e
ridicularizados. No dia seguinte, os papeis inverteram-se, os alunos de
olhos azuis a serem considerados os “inferiores” em relação aos de olhos
castanhos.
A professora
fotografou e avaliou o desempenho de cada grupo durante o exercício,
revelando a queda de aprendizagem nas crianças discriminadas. A
experiência virou documentário,
ganhou publicidade e inúmeras críticas. “Como te atreves a experimentar
aquela crueldade com crianças brancas; as crianças pretas crescem
habituadas a tal comportamento, mas as crianças brancas não conseguem
compreendê-lo. É cruel para as crianças brancas e vai causar-lhes graves
danos psicológicos”. Eis o senso comum, negros podem ser inferiorizados
e ridicularizados, afinal aprenderam a viver com poucas – ou nenhuma -
oportunidades. 20 de novembro, prefiro pensar.
“Eu
já suportei demais o seu escárnio. Suportar é a lei da minha raça. Eu
sou negro, sou negro sim. Mas por acaso negro não tem olhos? Negro não
tem mãos, não tem pau, não tem sentidos? Não come da mesma comida? Não
sofre das mesmas doenças? Não precisa dos mesmos remédios? Quando a
gente sua, não sua o corpo tal qual um branco? Quando vocês dão porrada
na gente, a gente não sangra igual? Quando vocês dão tiro na gente, a
gente não morre também? Pois se a gente é igual em tudo, também nisso
vamos ser...” (Lázaro Ramos em cena de Ó Pai Ó)
Texto de: Tatiana Coêlho
